Autor Tópico: Magia como linguagem e representação.  (Lida 233 vezes)

Agathos

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Magia como linguagem e representação.
« Online: Janeiro 02, 2018, 02:31:44 pm »
Ao longo dos anos tenho visto um tipo de engano vindo de magistas com graus variados de experiência ao confundir a qualidade de seus sistemas de magia como sendo uma diferença de grau de poder. Basicamente, um entusiasta de um dado sistema acredita que seu modo de ver as coisas é *melhor* do que outro modo de um outro praticante ou de um outro sistema. Em muitos casos, magistas inexperientes, ignorantes ou mesmo desonestos afirmam categoricamente que um dado sistema de magia é ruim,  enquanto o seu próprio sistema seria melhor, o supra-sumo da experiência magística da humanidade.

Tolice, pessoas. Tolice. Quando está claro que um dado sistema é o melhor para si mesmo não há o que censurar; qualquer um é supostamente capaz de saber o que é melhor pra si mesmo. Minha crítica aqui vem da observação de que muitos magistas partem da suposição de que seu sistema seria melhor do que outros sistemas, praticados por outras pessoas que não são de seu grupo, e que esse sistema seria o melhor tbm para essas outras pessoas, se não fossem tão ignorantes/estupidos/mau-carater/[insira aqui sua ofensa derrogatoria favorita].

O grande problema é quando alguém toma seu sistema de magia pela realidade, obviamente é natural supor que toda realidade se curve as suas crenças. A rigor, isto ocorre quando o grau de dogmatismo por parte do magísta é maior que seu bom-senso ou ainda, maior que sua experiência com sistemas magísticos distintos. Ao ignorar as variantes que os conceitos mágicos podem oferecer e se fiar apenas em um único sistema, o magísta fica desarmado por sua ignorância. Ao ignorar uma faceta da realidade, o magista se submete a ela. E magia, caros, vive apenas em liberdade.

Um único sistema de magia não pode, sob nenhuma hipótese,  dar conta de todo o real. De fato, todos os sistemas de magia já produzidos tbm não dão conta de todo o real, mas mais conhecimento mágico diminui o que *não* sabemos sobre o real. Uma regra rígida é que o universo produz muito mais informação do que somos capazes de perceber. E continua produzindo muito mais informações do que seríamos capazes de perceber, sistematizar e conjugar isso de modo útil a qualquer tempo de nossas vidas. Sistemas de magia são, ao seu próprio modo, um jeito de sistematizar o real em mapas de realidade que permitem de modo simples e eficiente traduzir a complexidade da vida em conceitos palataveis e facilmente compreensíveis. Cabala, Astrologia, Tarot, I-Ching, Opelé-Ifá, Oghans, Runas, e tantos outros sistemas são capazes de trazer significado para a natureza e a vida humana, coisas que em si mesmas prescindem de significado, mas que segundo nossa experiência nos coloca em contato com algo além de nós mesmos.

Sistemas de magia são apenas mapas de realidade, um modo consensual de ordenar o mundo segundo um dado sistema de crenças. Por exemplo, quando pensamos em uma Sephirah (como Geburah, por exemplo) ou uma Runa, ou um Odú, estamos pesando em diversas categorias,  ideias, valores e conceitos que são a Sephirah, ou a Runa, ou o Odú. Mas ainda seguindo o exemplo, Geburah representa os aspectos severos de YHWH. Representa a Guerra. Representa um Rei em sua carruagem de guerra. Representa Marte. Representa todos os Deuses da Guerra. Representa.

A severidade de YHWH é mais completa e complexa que isso. A Guerra é mais complexa que isso. Todas essas imagens e Deuses são mais complexos que isso.

Assim, toda forma de representação comunica algo a alguém. Geburah comunica a Guerra. Quanto a nós, somos seres dotados de linguagem, seres que fazem uso da linguagem como parte das estratégias de sobrevivência e adaptação ao meio. Possuir linguagem é uma das qualidades fundamentais de nossa espécie. Evoluímos para dialogar com outras pessoas, com natureza, mesmo que ela não se importe com nossa opinião, com seres de outros planos, mas antes de tudo dialogamos com nós mesmos e nossos universos interiores. E esse diálogo depende do modo o qual estabelecemos essas categorias de compreensão do nos cerca. Num certo sentido, depende do modo o qual construímos nossa linguagem, como construímos nossas representações e como elas são eficazes em transmitir nossas ideias sobre o mundo.

Posto isso, uma das formas mais eficazes de se transmitir uma ideia é através da arte. Admiramos artistas e suas obras, e para além de qualquer consideração racional, e quando são grandes cada um deles transmite a força da linguagem de seu povo e sua época. A beleza da arte consiste, portanto, na capacidade de tornar atemporal aquilo que é fugaz. E é assim que a Magia funciona, guys... Magia é chamada de Ars Magna, a Arte Maior ou Grande Arte como o termo ficou consagrado em português.

Cada sistema de magia pode ser tratado de modo eficaz como uma linguagem, com palavras, símbolos e gramática próprias. É uma *literatura de símbolos*, onde cada feitiço é como um poema, cada encantamento é como um conto.  Quando um sistema de magia se estabelece, admiramos seus fundadores, exaltamos os textos que escreveram, debatemos exaustivamante seus conceitos, criamos egrégoras em torno disso e brigamos de modo eficaz com qualquer pessoa que nos julgue contrariamente ao sistema que escolhemos. Brigamos por nossa escola de magia do mesmo modo que brigamos por causa de times de futebol ou partidos políticos. Mas como eu já disse, é tolice. É como brigar orgulhosamente com alguém por falar uma - e em muitos casos, apenas uma - língua.

Soa ridículo quando colocamos desse modo, não é mesmo? Pois é. É ridículo mesmo.

Mas cada povo e cada época de acordo com o que sua cultura permitia, constituiu formas eficazes de transmitir aos universos interiores e exteriores seus sentimentos, ideias, necessidades. Dialogaram fazendo uso de valores, fé, filosofia e amor. E a cada vez que a eficácia se estabelecia nos resultados visíveis desse diálogo imortal, novas palavras eram adicionadas a este vocabulário e novos falantes nasciam para a Grande Arte.

Até aqui, conversamos sobre os aspectos visíveis da Grande Arte, aqueles que pertencem a cultura, aqueles que possuem uma semiótica própria e são passíveis de sistematização e acabam por desenvolver uma  gramática própria. Certamente magia não se resume a isso, mas o seu aspecto temporal passa por todos esses problemas, por mais distinto que seja de seu aspecto perene. O que precisa ficar claro é que são justamente os aspectos culturalnente orientados que tratam da magia que geram uma gama tão extensa de problemas e confusão: O que é mais correto? Traçar o circulo mágico ou fazer o RMP? Tem que fazer círculo quando faz magia rúnica? Minhas quizilas valem na Wicca? Tenho 13 anos, posso me auto-iniciar na Umbanda?

A resposta para cada uma dessas perguntas (todas as outras perguntas por vezes desconcertantes sobre magia) passa sempre pela gramática especifica de cada escola de magia. A beleza disso é que um indivíduo multi-lingue pode efetivamente dar respostas a problemas que suas línguagens originárias não seriam capazes de responder. Um Wiccano nascido no Texas ou em Belfast pode nunca saber na vida o que é uma Quizila, ou eventualmente ler esse assunto num livro de modo teórico. Em tempo, uma Quizila é um tipo de proibição ou tabú nascido de uma iniciação em uma religião como o Candomblé, nas mais diversas nações que se apresentam no Brasil. Para um praticante brasileiro de Wicca, o conceito pode ser estranhamente próximo. Alguém que tenha cumprido seus 7 anos de Candomblé, por exemplo, e decida se tornar Wiccano ainda está sujeito às suas obrigações, incluindo os tabús próprios das Quizilas. Temos aqui universos metais distintos, práticas distintas mas que para um praticante individual precisa encontrar uma gramática que seja funcional na sua relação com Deuses e Espíritos. Uma nova língua, numa nova gramática vai surgindo na medida que novas conversões forem estabelecidas com o tempo. E o que era uma tradução vira tradição.

Isso também mostra que novas formas de magia são como gírias, pidgins e dialetos em formação. Muito da crítica que se faz contrária a Wicca, pop Magick ou magia do caos por exemplo, nasce da suposição que seriam formas menores de magia, o que é falso, já que ela bebe das mesmas fontes de quem critica. Isso é apenas a versão pagã do velho preconceito linguístico, se levarmos minha ideia. Quem critica esquece que qualquer novato num sistema mais velho e coeso tbm tem dificuldades em apresentar resultados. A diferença mais substancial entre um sistema mais antigo, estruturado e com uma gramática mágica mais coesa e um sistema mais jovem é que justamente os sistema mais jovens têm melhores condições de oferecer um apelo mais adequado para magistas mais jovens, o que por sua vez sistemas mais antigos tendem a falhar miseravelmente. Com mais praticantes mais jovens, é natural pensar que um sistema nascente seja menos eficiente, quando na verdade o que está em jogo geralmente é a inexperiência dos jovens praticantes X outros sistemas de magia mais coesos. Esta é de fato uma comparação injusta, pois se fosse possível comparar, que sejam os "standards" mínimos esperados de um magista ocidental dentro de parâmetros semelhantes. Acredite, vocês se surpreenderiam com a quantidade de bons magistas nascidos de tradições "vira-latas".

Para concluir, não faz o menor sentido, portanto, quando critica-se a prática de outro bruxo por não usar a gramática correta, até porque não há gramática correta. O que deve ser medido é a eficácia em expressar corretamente o diálogo com os Deuses, espíritos e a natureza. E eficácia se mede pelos resultados reais na vida desse praticante. Qualquer coisa diferente disso é semelhante ao elitismo que se pratica quando supõe-se que uma gíria não é uma linguagem adequada para pessoas bem educadas. E nós sabemos que o que basta é que se entenda bem com os Deuses, os espíritos e a natureza toda que nos cerca, todos generosos e de ouvidos atentos às nossas preces, sejam em latim, sejam preces com transistores e histórias em quadrinhos.

MurielMarinho

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Re:Magia como linguagem e representação.
« Resposta #1 Online: Janeiro 02, 2018, 05:35:04 pm »
Eu sempre vi essas questões através da Teoria Geral dos Sistemas (e as teorias sistêmicas como um todo) que compreende exatamente isso que você fala no texto: sistemas diferentes possuem formas diferentes de funcionar e por isso não tem como tentar submeter um ao outro, mas existem diferentes formas de dialogar esses sistemas. Eu aprendi sobre a TGS numa matéria da faculdade sobre as Teorias Sistêmicas que se trata de abordagens da Psicologia para sistemas, principalmente sistemas familiares. A matéria em um certo momento acaba incorporando diferentes concepções porque a área em si é bastante extensa, então minha visão compreende mais essa mistura do que apenas a TGS em si. A principal contribuição da TGS para as teorias sistêmicas (e isso acaba sendo a base de outras teorias, por isso citei primeiramente a TGS) é a compreensão de que a interação difere um sistema de um aglomerado, então quanto menor for a interação, mais o sistema irá se parecer com um conjunto de formas independentes. Logo, o foco deixa de ser apenas as partes, mas a interação entre as partes. Existem vários conceitos que explicam o funcionamento do sistema como homeostase negativa e positiva, por exemplo. Trazendo isso para os sistemas mágicos seria compreender como os diferentes sistemas afetam um sistema mágico específico e o que pode ocorrer depois disso. Por exemplo, na homeostase negativa com o confronto das ideias o sistema sairia da sua zona de conforto, mas após a resolução da tensão ele voltaria para a mesma forma de funcionamento voltando ao equilíbrio, na verdade, o próprio sistema se autorregula dessa forma. Na homeostase positiva esse sistema, após entrar em contato com algo que o desequilibre, irá encontrar uma nova forma de funcionamento, ou seja, uma nova forma de retornar ao equilíbrio, mas sem retornar para o ponto de partida o que daria origem a um novo sistema chamado também de morfogênese, uma nova forma de funcionamento. Aplicando isso ao que você discorreu, homeostase positiva seria incorporar novas formas de falar a magia no seu sistema, na verdade, tudo isso se trata da capacidade de interação e tudo que envolve ela (como, quando, onde, porque, o quê). A outra contribuição para essas abordagens sistêmicas é a Cibernética. A cibernética teve diferentes "reformas" ao longo do tempo e a mais recente compreende três conceitos/pressupostos que para mim são essenciais para isso tudo que são a instabilidade, intersubjetividade e complexidade. A instabilidade é a ideia de que todo sistema é instável, ou seja, vai sofrer variações e ser afetado por diferentes variáveis, a intersubjetividade é a construção de uma realidade "comum" no sistema através do diálogo das diferentes subjetividades e por fim, a complexidade, é a compreensão de que coisas diferentes podem coexistir, ressaltando que complexidade difere de complicado pois complicado é algo difícil de entender, já a complexidade é a possibilidade de coisas contraditórias existirem num ambiente comum. Aplicando isso não só na magia, mas nas religiões como um todo, facilita a dialogar as diferentes realidades. Por exemplo: depois dessas teorias eu pude organizar melhor a existência do Deus cristão no meu sistema pessoal, eu entendi que ele existe, mas não no meu sistema. Pessoas cristãs sentem o seu Deus na sua vida, sentem os sinais dele e tudo que uma presença divina pode ocasionar na vida da pessoa, então eu não poderia anular isso apenas porque eu não sinto. A sistêmica ajuda a entender que o Deus cristão existe, mas não existe (complexidade=contradição). Ele existe em determinados sistemas, mas não para mim. Aplicando tudo isso na magia é igualmente útil. A TCS, por exemplo, é um sistema. Esse sistema tem práticas e crenças específicas (que na sistêmica é trabalhado enquanto paradigmas) que são frutos da intersubjetividade, ou seja, do diálogo das realidades individuais de cada membro, não é à toa que para estar na TCS você precisa necessariamente estar de acordo com as práticas e crenças da TCS, ou seja, dialogar e interagir com o sistema TCS. Mas ao mesmo tempo, a TCS não impede seus membros de dialogar com diferentes sistemas e isso por sua vez altera a TCS enquanto sistema de crenças e isso depende da flexibilidade das fronteiras, que é aquilo que possibilita a entrada e saída do sistema e eu particularmente considero as fronteiras da TCS flexíveis uma vez que ela permite que seus membros possam se relacionar com outros sistemas e vir, posteriormente, contribuir para o sistema TCS (instabilidade e intersubjetividade). Ao mesmo tempo, nem todo mundo da TCS divide as mesmas crenças ou a mesma visão sobre os diferentes assuntos, nem as mesmas práticas, podendo até mesmo existir crenças e práticas contraditórias, mas que não se anulam o que é por sua vez bastante complexo. Cada sistema sempre terá subsistemas que estarão constantemente interagindo. Então o que a TCS é enquanto um sistema de crenças não se resume apenas a soma das crenças dos membros, ou seja, o todo é maior que a soma da suas partes. A não-somatividade também é um conceito importante na abordagem sistêmica pois, aplicando isso no exemplo acima, ajuda a compreender que a TCS é influenciada por cada membro da tradição, mas só isso não faz a TCS uma vez que ela, enquanto um sistema, tem um funcionamento próprio. Entende o que eu quero dizer? É aquilo que eu disse que mesmo que você divida um sistema de crenças totalmente contraditório, para estar na TCS você precisa estar de acordo com ela, você pode afetar a TCS enquanto sistema, mas ao mesmo tempo precisa compreender e respeitar a forma como ela funciona. Não apenas a TGS, mas as abordagens sistêmicas como um todo oferecem uma compreensão bem mais dialógica do mundo, mas é claro que isso é a minha visão desse sistema hahaha. Enfim, acredito que se todo mundo compreendesse que podemos existir em contato com aquilo que não dialoga com a gente, ou ao menos aceitar que podemos dialogar com aquilo que achamos que não dialoga com a gente, podemos proporcionar uma existência mais rica e ética, de certa forma, pois compreender que cada sistema tem em si a sua própria realidade nos leva a não tentar forçar a nossa nos outros e consequentemente podemos estabelecer diferentes relações com tudo e todos. A TGS e a Cibernética foram desenvolvidas paralelamente e ganharam várias releituras (incluindo caminhos contrários), mas ambas visam a construção de uma ciência novo-paradigmática, dessa forma, buscam romper com a compreensão positivista do mundo, com a ideia de objetividade, simplicidade e estabilidade que alguns métodos científicos tradicionais oferecem. Como eu já vi várias vezes vocês da TCS falando, ciência e magia são coisas que não estão tão distantes assim, muito pelo contrário, citando um trecho de um texto sobre as teorias sistêmicas e que dialoga perfeitamente com o seu texto, "penso que o importante é não nos esquecermos de que, como seres humanos, podemos constituir e viver em domínios linguísticos diferentes, com diferentes critérios de validação das afirmações, sendo inclusive possível nos movermos de um domínio para o outro". A magia está nessa movimentação entre os diferentes domínios :)