Samhain TCS 2016 – Cargas da Ceifeira e do Sacrificado

A Ceifeira

Eu vou e ele vem. Ele vem para dentro do meu corpo e somos um único ser, somos o todo de onde tudo vem e para onde tudo volta, inclusive você.

Chega o momento da última colheita quando ceifo sangue. Quando ceifo o sangue do meu amado que é parte de mim, que fluiu do meu ventre e se transformou tantas vezes por mim. Dançamos espiralados no movimento da roda, fiamos nossos caminhos e nossos beijos. De nosso último gozo surgiram as mais belas experiências de sua vida e quando suspiramos vieram os seus aprendizados.

A roda percorreu meu corpo em alegria e prazer, o meu sol conheceu mais íntimas curvas e meus profundos pensamentos. Nas mais ardentes certezas fui sim o sol dele, aqueci o seu corpo e despertei sua libido e abri o seu sexo. Sutis mortes e transtornantes recomeços que nunca são realmente recomeços pois é tudo novo e intenso.

Olhares lançados por novos anseios e passos apressados por pés nascidos há um segundo atrás. Eu sei que quando lançarmos nossos olhares já não serei eu e não será mais ele, você também terá mudado tanto a ponto de ser outra pessoa. Ele se entregará a mim, eu o recolherei e apagarei meu sol em seu peito. Apenas uma fagulha guardarei a caminho do meu ventre. O caminho não é longo, mas é gelado e solitário.

Se experimentar plantar uma semente o que verá senão apenas terra? Terra que parece morta, porem fértil e à espera do broto verde e cheio de esperança. O que germinará? Quem será o seu novo “eu” a partir deste momento de morte? Quem você cultivará dentro de si?

O medo é descartável quando você sabe que a noite que te chama sou eu, a sua Deusa. Ele, meu amado sabe disso em mim mergulha e flui por todo meu mar e quando minhas ondas se acalmam, nas superfícies de minhas densas águas se deleita em meus raios de amor. Ali, em meu útero todo o potencial está esperando somente o movimento dele e também o seu, pois eu também te renovo.

Sim! Nossos cabelos brancos vieram e a vivência apareceu em sua face. Percorri também seu rosto, suas mãos, seu ventre, seu peito e cada poro de sua pele. Viver é intenso e belo, se entregar à transformação é igualmente excitante. O inesperado é o que faz brilhar os olhos do Deus, inclusive em seu último gozo. Entregue-se, pois nada mais lhe resta quando o seu desejo é ter maravilhosas surpresas.

Entregue-se a mim e se abra para quem você será na próxima roda, se descubra e se construa!

Aproveite a intensidade do amor e de tudo o que te rodeia, descubra as novas velhas pessoas que também se redescobrem a cada roda. Aproveite a paisagem e os fios que sopro sobre vocês.

Seja a própria intensidade de sua vida!

O Sacrificado

A cada roda, um novo deus. A cada fim, um novo começo. A cada sacrifício, uma nova chance.

Eu, quando morro na noite de samhain, sei o sacrifício que faço. Eu, quando me deixo apagar a chama da vida nas águas do útero dela, sei do que estou me despedindo. Comigo morre uma roda. Comigo se enfraquece o sol, para que nas águas que fui formado, um novo deus possa nadar. Para que na terra que um dia andei, um novo deus possa andar.

Eu me sacrifico nos braços dela para que a roda continue a girar. Deixo meu posto de consorte ancião, para que um novo filho da esperança possa, em breve, aquecer seus dias. Quando me permito ser levado na noite de Samhain, choro. Mas não por medo, ou tristeza. Choro, pois, transborda em meus olhos o amor que sinto por ela. Na forma das lágrimas, me despeço do que, ao lado dela, construí.

Agora sigo, mas o que foi feito sob a luz de meu sol, continuará a existir e permanecerá prosperando com a força do novo deus. Mas ainda viverei no que em meus dias foi feito. Em cada árvore que em minha roda foi uma semente, eu estarei. Eu morro, mas nunca deixarei de ser uma eterna criação da deusa, que nesta terra sagrada permanecerá, nas formas mais singelas, a amando.

Sei que em cada lembrança sua da roda que foi, eu estarei lá. Morro, mas ainda viverei nas experiências e ritos de passagem de cada mulher e homem que nesta roda viveram. Assim como o sol, que se põe para um novo dia nascer, eu me deixo ser levado para que uma nova aurora venha. Eu, o Deus, morro para que um novo tome meu lugar.

No entanto, levo comigo parte de você também. Na noite de samhain, morre uma roda, morre um antigo você. Vivências que o transformaram. Pontos de vista que já não cabem mias. Comportamentos que não se enquadram em sua nova roda. Na noite de samhain morrem os hábitos de um antigo você. Junto de mim, vocês sacrificam uma persona passada. Um alguém que se renova e que como uma cobra troca sua pele.

Quando ela me leva, eu sei a hora de ir. Quando ela se torna a ceifeira e com sua foice vem para comigo sentir nosso último orgasmo juntos, eu sei a hora que devo ir. No entanto, nenhum dos dois sabe o que virá depois. Quando um deus morre, o novo ainda está nas águas deu seu útero. Quando o sacrificado deixa apagar seu sol, e daí surge o inverno, os homens não sabem que deus vem a seguir.

Então, por que deveria você saber quem será quando Yule chegar? Permita-se germinar. Permita-se, como um bebê na nova roda, descobrir, crescer, amar e ser amado, para reinar sua própria vida. Para colher os grãos de sua vitória e então, mais uma vez, escutar o chamado da dama da noite e deixar-se morrer uma vez mais.

O ciclo dos filhos da deusa, como eu e você, são o fluir, o ir e vir de um novo self, de um novo homem e mulher nas linhas do destino trançadas por ela.

É uma nova roda, um novo deus, um novo começo para os que ficam. Descubra quem será nessa próxima roda. Sinta, viva e goze, sabendo que esse você morrerá no próximo samhain, para que um novo renasça.

Sinta e viva o ciclo intensamente, sempre.

A Ceifeira e o Sacrificado

A vida se transforma e nós dançamos este ciclo.

Quando se vive intensamente, a hora da morte não dá medo. Depois de uma vida satisfatória, a hora final desperta nada, senão amor.

O calor e a segurança do útero o envolve novamente e acolhe as esperanças fazendo surgir maravilhas e perfeições. O coração pode até diminuir a frequência, mas está ali e eu sinto o seu pulsar.

Desde o momento em que nasci, do ventre dela, até a derradeira hora da despedida, eu a amei com todas as forças da ordem, com toda a intensidade do selvagem e com toda a magia da criação.

O amor veio de nossa união, o entusiasmo de nossos momentos de amor e o prazer de nosso gozo. Tudo isso oferecemos a você. Toda esta experiência fantástica é sua agora!

No fim, a vida se esvai de meu peito para voltar ao dela. Dos meus olhos, dos meus poros e do meu falo, me desfaço em amor para morrer, feliz e pleno em seus braços.

Para que novos começos aflorem em meus campos eu o acolho. Para que um novo sol desponte no horizonte ele mergulha em mim. Para que uma nova roda venha, nós nos misturamos em amor, prazer e entrega. Venha conosco e experimente a nossa intensidade, dance a nova roda e a deixe nascer em sua vida.

No fim, ela está lá por mim e também estará por você.