Você sabe Astrologia?

Recorrentemente vejo no Facebook, em conversas com amigos ou mesmo, às vezes, em conversas com pessoas do caminho mágico comentários da seguinte natureza: “Ah, fulano é hipocondríaco porque é de virgem”… “beltrano é de aquário e não tem coração”… “ciclana é de escorpião, cuidado com ela, é vingativa”…
Quando ouço ou leio esse tipo de comentário percebo com clareza que o autor do mesmo nunca estudou astrologia a sério. Percebo que seu conhecimento sobre o assunto é limitado, raso e incapaz de entender ao menos os rudimentos da arte dos céus. E sei claramente que essa pessoa perpetua ignorância através dessa arte tão invulgar e bela. Como Athena me disse certa vez: “Pouco conhecimento sobre qualquer coisa é mais danoso que conhecimento nenhum. Ao desconhecer o que não se sabe, o tolo perpetua ignorância com um verniz de conhecimento real.” E complemento: é seguido por outros tolos.
Por isso pessoas, eu convido vocês, hoje, a começar um exercício de humildade. Pergunte a si mesmo o que você não sabe sobre determinado assunto, para que você seja capaz de compreender a extensão de sua ignorância. Não tenha medo disso. Todos somos ignorantes em algo, por vezes algo que não gostaríamos de admitir. E admitir nossos limites pode ser doloroso ou humilhante. Mas por um momento, assuma seus limites. E especificamente, peço que perceba o quanto você não sabe sobre Astrologia.
Retomando meu tópico inicial, astrologia sempre foi uma arte magna cercada de ignorantes por todos os lados. A maioria das pessoas é incapaz de saber de fato o que é astrologia, para que serve e como deve ser usada. A maioria das pessoas a quase 2000 anos faz isso; coloco aqui para vocês o capitulo 39 do Satyricon de Petrônio para a diversão de vocês e como exemplo de meu argumento.
Trimalquio é o personagem central dessa passagem. É um liberto (um ex-excravo) que recebeu de seu senhor a liberdade e a fortuna dele. Durante o famoso banquete em sua casa, ele passa a explicação de um globo que lá estava e que elencava as constelações do zodíaco:
“(…) O céu é a morada de doze divindades, assumindo-se os diferentes aspectos. Ora, se está sob influência de Áries, todos os que nasceram sob essa constelação possuem numerosos rebanhos e lã em abundância. São, além disso, teimosos, impudicos e gostam de ferir as pessoas. Esse signo preside o nascimento da maior parte dos estudantes e declamadores.
(…)
A seguir vem Touro a remar sob os céus. Nascem as pessoas desagradáveis, os vaqueiros, e todos aqueles que nada fazem da vida além de pastar como animais. Os que nascem sob o signo de Gêmeos gostam de se acasalar como os dois cavalos de uma biga, como duas vacas de uma charrua ou como os dois órgãos da geração. Gostam igualmente dos dois sexos. Quanto a mim, nasci sob o signo de Câncer. Tal qual esse animal anfíbio ando com vários pés e meus domínios se estendem sobre os dois elementos. Sobe esse signo coloquei apenas uma coroa para não desfigurar meu horóscopo. Sob o Leão, nascem os gastrônomos e os que gostam de dominar. Sob Virgem, os homens efeminados, os covardes, os destinados as galés. Sob Balança, os açougueiros, os perfumistas, e todos que usam a balança em seus negócios. Sob Escorpião, os envenenadores, e assassinos. Sob Sagitário, as pessoas vesgas, que parecem olhar para os legumes mas tomam o toucinho. Sob Capricórnio, os estivadores, cuja pele se torna calosa de tanto trabalho. Sob Aquário, os senhores de estalagem e as pessoas de cabeça dura [i.e. – “cabeça-de-abobora”]. Finalmente sob os Peixes, os cozinheiros e os retóricos. Assim gira o mundo, como a roda de um moinho. Esse movimento de rotação sempre nos traz algum infortúnio, que os homem nasça ou morra. (…)”

PETRÔNIO. Satyricon 39, trad: Alex Marins. Editora Martin Claret, 2003: São Paulo. Veja nesse link: https://www.gutenberg.org/files/5225/5225-h/5225-h.htm… para uma outra versão.
Trilmaquio está fazendo graça da astrologia, e é preciso algum conhecimento da mesma para isso. Mas as descrições dadas aos signos e suas características e as características dos nativos mais possuem relação com a imagem aparente de cada signo do que um conhecimento efetivo da ciência astrológica. Por exemplo, quando o autor diz que os nativos de Virgem estão destinados as Galés é uma referencia às correntes de Andrômeda, que referencia esse signo. O mesmo acontece quando diz que os nativos de Áries são especialistas em lã e ovelhas. O ex-escravo faz uso da astrologia para o divertimento seu e de seus convidados, mas nada além disso. Essa relação com a astrologia é semelhante a que fazemos hoje. Um mar de ignorância cercada de um verniz de conhecimento.
Citaria outras passagens acerca da ignorância generalizada em torno da astrologia (mas por enquanto me basta saber que para Petrônio, aquarianos dariam excelentes bar-tenders e que leoninos são gulosos), mas o foco aqui é perceber que exceto se você for um especialista, certamente você saberá pouco sobre o assunto.
O suposto astrólogo crê que pode definir algo sobre qualquer pessoa baseado apenas no seu signo solar. Por isso aqui vai a primeira lição do titio Agathos sobre o desconhecimento em astrologia: signo solar não define personalidade. A posição do Sol no mapa de um nativo revela para a astrologia clássica e medieval os componentes biológicos e de saúde na personalidade de alguém.
Para os antigos, a personalidade era dada pelo Ascendente. Aliás, ainda é assim, mas todos ignoramos isso enquanto cultura e porque é muito mais fácil descobrir o mês de aniversário do que o ascendente. Foi por esse motivo que o signo solar ganhou relevância sobre o signo do ascendente com a popularização da imprensa. Basicamente, os jornais passaram a indicar o período do mês em que o sol estava sob um determinando signo e começara a afirmar que este era o “Horóscopo”. O suposto astrólogo (ou astróloga também, deixo claro) vai usar isso para pegar mais gente na balada.
O suposto astrólogo crê que basta o mapa astrológico para entender a personalidade de alguém, lendo todos os planetas em suas casas e signos. O suposto astrólogo esquece detalhes importantes como os aspectos que formam o mapa, planetas em retrogradação, declinação dos mesmos (a declinação da Lua, por exemplo é importantíssima), casas interceptadas, ângulos e planetas em cúspides (“cuspir em quem?”). Isso se chama delineação e é parte fundamental da arte da interpretação astrológica. O suposto astrólogo não sabe nem por onde ou como começar (fica dica, pelo ascendente).
O suposto astrólogo é incapaz de ver os planetas em movimento, em trânsito, constituindo a personalidade do nativo. Ele não entende que um menino de 7 anos de idade ainda não desenvolveu sua personalidade adequadamente em função dos trânsitos possíveis de serem sofridos ao longo de uma vida. Rigorosamente falando, é preciso 29 anos para que Saturno dê uma volta completa no zodíaco, e para que todos os aspectos de sua personalidade sejam testados por ele.
(Aviso: ASTROLOGUÊS BRABO ABAIXO)
Por exemplo. Alguém nascido com o Sol em 11 de Sagitário (11 graus de Sagitário, pra você que não entendeu) está hoje com Saturno em trânsito sobre o Sol. Isso quer dizer que HOJE essa pessoa teve sua vitalidade diminuída? Não. Significa que HOJE um processo de perda de vitalidade (entre outras diversas consequências desse trânsito) alcançou seu auge. Se admitirmos uma órbita de 3 graus para esse aspecto, isso começou por volta de 1 de dezembro de 2015, ficou crítico na primeira semana de janeiro de 2016, mantendo os sintomas até junho desse ano quando Saturno começa a retrograr no inicio de julho, alcançando novamente hoje o grau 11 de Sagitário. Saturno vai continuar em movimento retrógrado até dia 13 de agosto (sugestivo) quando vai alcançar o 9° de Sagitário e daí avançar novamente até o grau 11 no dia 22 de setembro desse ano. Ele continua se afastando do grau 11 até alcançar o grau 14 em 30 de outubro. 9 meses. 9 meses Saturno limitando qualquer pessoa com planetas no grau 11 de Sagitário. E também qualquer pessoa com planetas nessa faixa de 11 graus nos signos mutáveis. O suposto astrólogo não consegue entender isso.
Um astrólogo lê isso e todos os planetas ao mesmo tempo para uma dada carta astrológica. TODOS OS PLANETAS, VÉI. O astrólogo sabe que a personalidade individual é constituída pelos trânsitos (como eu descrevi acima) sobre os planetas da carta natal. O cara com Sol em Sagitário não nasce sagitariano. Ele se faz “sagitariano” (alguém com sol em Sagitário) a cada mês quando a Lua passa sobre seu Sol natal. Também a cada ano, quando Mercúrio e Vênus em trânsito passam de duas a 3 vezes sobre seu Sol natal. Também a cada ano sempre que o Sol retorna a posição natal. A cada 3 anos, quando Marte faz o mesmo. Até os 3 anos de idade uma criança com sol em um determinado signo terá experimentado o trânsito de cerca de 39 lunações sobre o seu Sol, pouco mais de 24 vezes para Mercúrio e Vênus e apenas 1 vez para Marte. Júpiter terá andado apenas ¼ de sua posição natal e Saturno terá andado um ou dois signos. E a não ser que eles estejam muito perto da posição do Sol, certamente essa criança não terá sofrido influência desses planetas sobre o Sol natal. E para cada vez que um planeta passa sobre a posição de outro no mapa natal ele lança suas energias sobre aquela posição modificando a personalidade do nativo.
Se você não entendeu o astrologuês até aqui – e eu disse tudo isso do jeito mais tosco possível, com algum erros técnicos em favor da explicação – e ainda assim insiste em classificar o coleguinha por seu signo solar, bem eu só tenho a lamentar e dizer que você é um completo idiota. Você não sabe astrologia o bastante para opinar. Você é aquele tipo de ignorante do qual Athena me alertou e que eu citei acima e a Magna Arte da astrologia perde com o seu desconhecimento. Por favor, pare.
Mas não terminou crianças. Vamos à situação mais grave e dessa, falo de cátedra. Há alguns anos que escrevi junto com a Naelyan um texto sobre Cassandras (http://www.caminhosdassombras.com.br/…/sonhos-profecias-or…/). Existe um tipo especial de Cassandra (reitero, pode ser um homem ou uma mulher) que é viciado em astrologia. Eu era assim, exatamente esse tipo.
Eu era assim por medo de não ser aceito. Eu era assim por medo de que não ser amado. Eu tinha atenção que queria, mas era incapaz de dar amor ou atenção devida porque simplesmente não estava aberto a me relacionar com os outros. Meu amor aos céus era legítimo e é parte de minha alma, mas meu conhecimento sobre astrologia era apenas uma visão pálida desse amor. Era como amar a foto de uma pessoa amada. Era assim minha relação com o céu. Quando decidi ficar um ano e meio de molho com astrologia, envergonhado com minhas atitudes por causa da mesma, bem… foi um período duro. Um período para controlar meu vício. Mas o mundo se abriu. O foco do vício mudou e a energia gasta se distribuiu por toda a psiquê me equilibrando e melhorando globalmente minha vida. Eu conheci pessoas, eu aprendi a conhecer pessoas com quem eu convivia diuturnamente, mas não as conhecia de verdade. Eu aprendi a amar.
Até aqui, eu não sabia a Magna Arte. Até aqui eu vivia a ilusão de achar que as pessoas são seus mapas astrológicos, com toda a complexidade matemática de um mapa. Até aqui eu não percebia a ilusão de que por mais complexo que seja um mapa, ele é apenas uma representação, como uma foto. Uma foto não é a pessoa que se retrata, do mesmo modo que um mapa não é o nativo do qual se fala. Astrologia somente se abriu para mim quando decidi que pessoas são mais que seus próprios mapas e decidi conhecê-las antes de interpretá-las astrologicamente.
Aí descobri uma coisa.
De todas as especialidades astrológicas, justamente aquela que se debruça na interpretação da personalidade é justamente a mais nova e a mais sujeita a erros. Foi largamente desenvolvida a partir do início do século XX. Isso mesmo, jovem Padawan. É mais seguro saber o destino de alguém analisando os trânsitos astrológicos do que descobrir se essa pessoa gosta de bananas ou se foi amada pelos pais. O suposto astrólogo vai responder essa última pergunta do jeito mais grosseiro, dizendo (por exemplo) que o Canceriano é um eterno carente mimado e choramingão. Pois bem, duas das pessoas mais disciplinadas, exigentes e centradas que conheço são pessoas com Sol, Lua, Mercúrio e Vênus em Câncer. Um deles tem tudo isso no ascendente. Lide com isso.
Para concluir, peço que vocês pensem na atitude de tratar a Arte Magna da Astrologia apenas como mero passatempo ou crença. Cinco mil anos de desenvolvimento e 2700 anos de compreensão racional do tema não podem ser resumidos em atitudes e discursos do tipo “Aquarianos-sem-coração” ou “Como o Leonino troca uma Lâmpada?”. Que parem de achar que astrologia é para pegar alguém na balada (ok, vá lá, já fiz isso e pode ser divertido, mas não limitem, ok?). Parem de achar que astrologia é muleta para os seus próprios defeitos e mau caráter. Você é impaciente, perdulário ou agressivo porque quer e não porque é de Áries. E quando quiser, quando a astrologia deixar de ser seu Diabo na qual você projeta todos os seus pecados, você será uma pessoa paciente, precavida e gentil. Não crucifique a astrologia aos seus pecados.
Nem reduza a uma simples crença. Astrologia é para ser conhecida. Tanto quanto história ou bioquímica. Mesmo que ela não compartilhe do mesmo paradigma da ciência moderna, ela é um sistema de conhecimento, e deve ser tratada como tal. Se você conhece bastante dela, procure desmistificar quando possível aquilo que é apenas ignorância. Os pressupostos da astrologia devem ser compreendidos antes de qualquer defesa, comentário ou crítica. Se você faz diferente disso, apenas pare, por favor.
O seu desconhecimento sobre a Arte Magna é a fonte de todos os males sobre ela.