Estou pronto para a Iniciação?

Há algum tempo me perguntaram quando é que eu sei que uma pessoa está pronta para a iniciação. Não tenho uma resposta definitiva. É uma culminação de fatores. O primeiro deles é a pessoa querer se iniciar. Ela precisa chegar e, com todas as palavras, pedir para ser iniciada.

“Eu quero ser iniciado, por favor me inicie.”

Assim como a pessoa precisa pedir para ser dedicada, ela também precisa pedir para ser iniciada. Não cabe ao iniciador marcar a data da iniciação de alguém. Você pode, no máximo, dar uma idéia para a pessoa de quando você acredita que ela estará pronta para ser iniciada. Mas a decisão de se iniciar ou não naquela data, deve ser da pessoa.

Ela tem que ter certeza de quer se iniciar, certeza absoluta de que quer entregar sua vida em serviço aos Deuses. Pode ser que a pessoa esteja na dúvida se está pronta ou não e neste caso, cabe ao iniciador avaliar se ela realmente não está pronta ou se está apenas com medo. Mas ela não pode ter a menor dúvida de que este é seu caminho.

Quando estou avaliando um postulante para a iniciação eu faço a ele ou ela repetidamente, duas perguntas. A primeira é:

“Você tem certeza de que quer se iniciar?”

O segundo fator é se a pessoa está realmente disposta a assumir as rédeas de sua vida. Ela faz o que ela quer? Tem a coragem de tomar suas próprias decisões, por mais dolorosas que sejam? Ou ela se deixa levar pelas opiniões alheias? Deixa-se controlar e manipular? Ela é capaz de manter-se fiel a suas decisões ou qualquer conversa pode fazê-la mudar de idéia?

E se por acaso ela tomou um caminho errado em algum ponto, ela é capaz de perceber seu erro e assumir a responsabilidade de consertar? Ou vai persistir no erro até o fim, mesmo sentindo que este não é mais o caminho correto?

Temos é claro os demais fatores, a devoção aos Deuses, o nível de aprendizado, a idade (a maioria das tradições não inicia menores) e uma gama de fatores que pode variar de um caminho para outro.

Mas estar pronto para a iniciação não basta, o postulante precisa também ter a certeza de quer se iniciar com aquele iniciador específico. E é por isso que a segunda pergunta que eu faço a meus postulantes na avaliação para a iniciação é:

“Você tem certeza de que quer se iniciar comigo?”

Porque esta é uma grande questão. A escolha do iniciador é de suma importância para a sua vida mágica. E uma que não deve ser feita levianamente. O iniciador é aquele que guia o postulante através do portal, que toma seu juramento de serviço aos Deuses e que passará ao postulante parte de seu poder e de seu DNA mágico, uma espécie de assinatura energética do iniciador.

Antes de se iniciar com alguém, um postulante precisa pensar com muito cuidado se ele ou ela deseja realmente carregar a assinatura energética daquele iniciador pelo resto de seus dias.

Cada vez que eu dedico uma pessoa eu aviso a ela que, se a qualquer momento ela sentir que não deseja mais trabalhar comigo, é só dizer. E então eu tentarei encontrar um outro iniciador para continuar o trabalho com ela. Sem crise, sem culpa, sem grilos.

E algumas vezes eu mesma cheguei para determinadas pessoas e recomendei a troca de laços. Quando percebi que eu não era a pessoa mais adequada para iniciar aquela pessoa. Afinal, cabe ao iniciador também saber perceber quando ele ou ela não é melhor pessoa para iniciar um postulante específico. Mas nem sempre o iniciador consegue enxergar isso.

É a diferença entre as afirmações: “Eu quero te iniciar” e “Eu quero que você se inicie.”

A primeira é focada no “eu”, na pessoa do iniciador. O Iniciador quer iniciar aquele postulante, quer ele queira ou não, e fará qualquer coisa para levá-lo à iniciação.

A segunda, “Eu quero que você se inicie.” É focada no postulante, é querer ver o postulante iniciado, prestando serviço aos Deuses, mesmo que não seja você a levá-lo até a Iniciação.

Mas esta é uma posição das mais difíceis e exige maturidade por parte do iniciador. É por isso que, em algumas tradições e caminhos mágicos, um iniciador só pode iniciar alguém com a presença e acompanhamento de seu próprio iniciador. É uma forma de validar aquele iniciador, saber se ele ou ela está realmente pronto para iniciar alguém.

E quando uma pessoa está pronta para iniciar alguém? Quando ela for capaz de entender que o caminho do postulante pertence a ele, e não a ela. Quando tiver humildade o bastante para ser capaz de servir o postulante e não ser o centro das atenções. Quando a pessoa puder dizer: “eu quero que você se inicie, mesmo que não seja comigo” e não “eu quero te iniciar”.

O que acontece muito é o iniciador assumir uma postura de posse em relação a seu postulante. Como se o postulante fosse dele, fosse algo que ele pode controlar. “Olha, eu sei o que é melhor para você, sou seu dedicador.” Ser um dedicador não te torna dono do destino da pessoa, e não te faz saber o que é melhor para ela. Só ela mesma pode saber disso.

O postulante não pertence ao iniciador, pertence apenas a si mesmo. É uma honra conduzir alguém ao serviço dos Deuses, não um direito adquirido.

É uma honra ser escolhido como iniciador de alguém, mas a honra só é real se a escolha for feita em liberdade. Liberdade para ir ou ficar.

Quando uma pessoa se dedica não existe a menor certeza de que ela chegará à iniciação. E, não existe nada que garanta que ela chegará à iniciação com aquele Iniciador. A Iniciação é um passo muito importante e muito individual.

A líder de meu antigo coven costumava dizer que covens possuem portas giratórias. As pessoas entram e saem. Algumas pessoas viam nisso uma postura de descaso, mas eu entendi o ponto de vista dela. Nós ficamos na vida de alguém pelo tempo que nos é dado e nada é para sempre. A pessoa vem, entra, fica pelo tempo que precisa ficar e depois sai.

A dedicação também é assim. Não que ela tenha portas giratórias, longe disso. Mas o fato é que a pessoa também só fica pelo tempo que precisa ficar, nem um minuto a mais. E cabe ao iniciador recebê-la de braços abertos quando ela chega, dando o melhor de si no treinamento dela; mas cabe também a ele dar-lhe um abraço de despedida quando ela decide ir embora, deixando que ela parta com suas bênçãos; e cabe a ele ou ela manter os braços abertos para receber esta pessoa de volta, caso ela decida voltar.

Laços mágicos, como o amor, não podem ser gaiolas. E assim como no amor, se um dedicado quer ir, deixe-o livre, se ele voltar, é porque é seu, se não voltar, é porque nunca foi.