O Papel do Iniciador

Há algum tempo, conversando com uma outra sacerdotisa, ela me perguntou o que eu faria se alguém com quem eu estivesse tendo um relacionamento amoroso ou um grande amigo me pedisse dedicação. Eu disse a ela que o encaminharia a outra sacerdotisa ou sacerdote.

Ela foi contra minha posição, dizendo que eu deveria ser capaz de treinar alguém mesmo se estivesse envolvida com essa pessoa. As colocações dela me fizeram pensar sobre as dificuldades do papel do iniciador.

Ser um iniciador não é fácil. Não é algo que uma pessoa deva abraçar levianamente. Você será confrontado com uma série de questões ao longo do processo e precisa saber que não terá a resposta a todas elas. Você vai errar muito e precisa ter humildade para aprender com seus erros. Mas o que você mais precisa ter é a plena consciência de seus limites, aqueles que podem ser quebrados e aqueles que você não está pronto para quebrar naquele momento.

Um desses limites é nossa humanidade. Não somos seres perfeitos, capazes de fazer sempre o mais certo, somos sujeitos a erros, sim. Principalmente quando nossas emoções estão envolvidas no processo.

Um outro sacerdote amigo meu diz que você não precisa gostar de alguém para treinar e iniciar essa pessoa. E ele está certo. O problema, na minha opinião, é quando você gosta muito de uma pessoa e precisa treiná-la.

O treinamento iniciático não é fácil, principalmente quando envolve processos de autoconhecimento. A busca pelo autoconhecimento é dolorosa, não é fácil encarar seus monstros interiores, não é fácil ser confrontado com características suas que você preferia que fossem deixadas debaixo do tapete.

E mesmo se o treinamento não envolver processos de autoconhecimento, ele pode ser muito dif ícil em algumas horas e muito chato em outras. Quem conhece o meu bendito exercício da vela sabe disso!

E tem horas em que a pessoa terá a vontade de largar tudo. Ou de pular um determinado exercício porque ele é doloroso ou chato. E é nessa hora que o iniciador precisa ter pulso firme. Mas como ter pulso firme com alguém a quem você ama? Como ser duro com alguém de quem você gosta? Não, não é fácil.

Existem pessoas que possuem uma natural rebeldia. De modo geral são pessoas com um grande potencial mágico, mas que possuem a tendência de se rebelar constantemente no treinamento. Elas não fazem o que o iniciador pede ou cismam de fazer do jeito delas. Pulam fases, deixam de se aprimorar numa coisa ou em outra, evitam todas as partes chatas e dolorosas do processo. Querem fazer o que querem fazer e só isso.

Existe a tendência natural de se concordar com isso, afinal, quem perde é a pessoa. O iniciador não perde em nada. Mas eu sou radicalmente contra essa postura. Acho que se uma pessoa se dispôs a entrar para uma determinada tradição ou aprender um determinado caminho mágico, ela precisa estar disposta a seguir as regras do caminho e as instruções de seu iniciador. E precisa cumprir todas as suas tarefas, sejam elas quais forem.

Muitos usam a desculpa do: “Ah, eu já aprendi isso em outro caminho mágico, já dominei essa técnica.” Ou “eu sou diferente, isso não se aplica a mim”. Ou até “eu já vivi isso em uma vida passada, não preciso viver de novo.” Para mim, tudo isso é apenas uma desculpa para fugir de fazer o que deve ser feito. Você não aprende a tocar um instrumento musical pulando as lições. Se você tiver um talento natural, ele se manifestará e você aprenderá mais rápido, mas nenhuma justificativa é boa o suficiente para se negar a cumprir uma parte do processo.

E é aí que o peso fica maior sobre o iniciador. Porque tem horas em que você simplesmente precisa ter pulso firme e dizer a uma pessoa em alto e bom tom: “Você está aqui porque quis estar, as regras deste caminho são essas, cumpra ou saia.”

Mas como fazer isso quando seu coração está envolvido no processo?

É nessa hora em que um iniciador se vê preso entre a cruz e a espada. Se ele forçar a barra com a pessoa poderá perder o amante ou o amigo. Se não forçar a barra está traindo seus votos, sua tradição, seu caminho, seus Deuses.

Isso porque uma pessoa que não é capaz de aceitar as instruções de seu iniciador está dizendo que não confia naquele iniciador para saber o que precisa ser feito. E uma pessoa que não confia em seu iniciador, não se abre para ele, não se abre para o aprendizado, ela será sempre alguém com um conhecimento apenas superficial daquele caminho. E um dia vai propagar este conhecimento superficial àqueles a quem for treinar. E será sempre um mau exemplo a os outros membros, um elemento desmotivador. “Porque eu devo me esforçar nesse processo difícil, quando fulano faz o que quer e ninguém faz nada?” Afinal, como cobrar que outras pessoas façam o que você determina quando há uma pessoa que se recusa terminantemente e faz alarde disso?

Eu já vi isso acontecer em mais de um caminho e sei que sempre o resultado é terrível. E é por isso que eu acho tão difícil treinar uma pessoa com a qual estou emocionalmente envolvida, porque não sei se encontrarei em meu coração a força necessária para agir com dureza quando a dureza for requerida. Ou se, no afã de agir de modo correto, serei mais dura do que o necessário.

Já cometi uma boa cota de erros nessas questões e sei que vou cometer muitos mais. Espero apenas que a Deusa possa me guiar para corrigir o que precisar ser corrigido e aprender o suficiente para que meus erros não sejam irreversíveis. Afinal, eu também ainda estou aprendendo.