A Deusa e o Elefante Laranja

É fácil sentar e meditar com a Deusa, certo?

Bom, deveria ser, afinal ela está lá paradona, esperando você ir conversar com ela, trocar uma idéia, jogar um papo fora.

Mas pra algumas pessoas não é tão fácil. Algumas pessoas simplesmente não conseguem meditar, ou conseguem mas a Deusa fica olhando pra cara delas com um sorriso sarcástico. E ela certamente já fez isso com você também.

Os Deuses falam conosco o tempo todo, não só em meditação. Se você parar para ouvir, para prestar atenção nos detalhes, verá não só os Deuses dando pequenos sinais, mas às vezes colocando um enorme elefante laranja na sua sala de estar e você está muito ocupado para perceber.

Pra mim a meditação não é a forma mais eficiente que os Deuses tem de se comunicar, simplesmente por que tudo precisa ser filtrado antes pela minha mente racional. E ela é ruim que dói.

Você tem um elefante sentado no seu sofá, te oferecendo pipoca, e você está indo meditar com a Deusa pra saber por que se sente tão “oprimido” em casa. A Deusa vai dizer pra você o que você precisa ouvir (“Você está dividindo espaço com um elefante, sua anta, é claro que está se sentindo oprimido”). Se você vai entender ou não, é outra história.

Os Deuses não tem filtros. Eles falam o que acham necessário. E o mais bonitinho disso, é que vai de divindade pra divindade, mas mesmo Íris, a Deusa Grega do Arco Íris, ou Barbie, a Deusa Rosa da felicidade eterna (ok, essa não existe…) vão ter um palavrão cabeludo ou dois pra dizer, se você não enxergar que tem uma porcaria de um elefante na sua sala!

Não me entenda mal. Eu gosto de elefantes. Gosto mesmo. Só não tenho interesse em ter um na minha sala. Alimentar um. Tirar o cocô dele. Hum… o elefante é só uma metáfora ok?

Às vezes, conversar com os Deuses não resolve. O que resolve é tomar uma atitude, e isso os Deuses não vão fazer por você. Você pode falar com dúzias de divindades diferentes e só vai ouvir a mesma coisa. Vai ouvir apenas o que você quer ouvir. E isso acontece não por que a divindade não fala o que precisa ser falado, mas por que seus ouvidos estão cheios de cera (ou outras coisas, blergh).

E por acharmos que a divindade precisa falar, nossa mente coloca palavras na boca dela.

Por que afinal de contas, uma meditação não pode ser em vão, certo? Você foi falar com a Deusa, então ela tem que falar, ora bolas! Mas não é sempre que conseguimos acessar a Deusa. E isso é natural. Às vezes, você está distraído e não conseguiu aprofundar no alfa. Às vezes a Deusa não quer falar nada mesmo. Às vezes precisamos ficar um tempo sozinhos para enxergar um problema antes de falarmos sobre ele. E quando isso acontece, ir conversar com os Deuses sobre ele é transferir a responsabilidade do processo.

Você sabia que você tem o direito de mandar a Deusa ir pastar se ela mandar você pintar seu templo de laranja, se mudar pro Nepal, raspar a cabeça e fazer jejum de dinheiro? Se você concordar com a Deusa saiba que isso é uma escolha sua. E toda a escolha traz uma responsabilidade, por que a opção é sempre sua. A responsabilidade é e sempre vai ser de quem fez a escolha.

Os Deuses não vão virar pra você e dizer “Olha, você precisa sacrificar seu filho. Ahn? Não, não, o outro. Aquele ali que você ama mais. Sei lá, empurra da escada, adaga ritual, sua escolha. Só mata ele e pronto.” Eles não vão virar pra você e dizer, “você não pode fazer tal coisa e deve me obedecer”. Pelo menos não deveriam em situações corriqueiras. E se eles estão fazendo isso é por que tem um motivo muito, muito bom. Ou, por que por algum motivo, você está transferindo responsabilidade por uma escolha e sua mente está produzindo isso tudo.

E é natural fazermos isso. Fizemos isso a vida inteira. Transferimos responsabilidade de nossa felicidade para nossos pais, namorados e cônjuges. Dizemos que somos infelizes hoje por causa do nosso divórcio. Dizemos que não conseguimos crescer por causa de nossa pouca formação profissional. Dizemos que não conseguimos ser sacerdotes melhores por que não temos tempo de nos dedicarmos. Dizemos que não temos namorado por que não tem homem suficiente no mercado.

Por que deixaríamos de transferir para os Deuses uma parcela de nossa responsabilidade? Ah, a Deusa me mandou fazer tal coisa. A Deusa me proibiu de fazer tal coisa. Isso é perfeitamente compreensível, desde que siga uma frase que gosto muito: “Enquanto as vozes na sua cabeça não disserem pra você matar alguém, tá tudo bem”.

O problema é que nós vivemos em uma comunidade e seu vínculo com os Deuses não influencia somente a você. Você é responsável pelo tipo de contato que outras pessoas terão com a Divindade. Sua transferência de responsabilidade pode ser entendida como parte de um processo natural e benéfico. E não é. E outras pessoas vão te imitar. E isso vai fazer com que o seu processo de transferência se torne contagioso. Acreditem, é muito mais fácil dizer que a Deusa me mandou pedir demissão do que assumir que eu não estava dando conta do meu serviço. Por que você pode ouvir isso da Deusa e eu não?

Os Deuses não querem ovelhas seguidoras. Eles querem pessoas independentes e com vontade própria, por que o serviço aos Deuses exige muita força de vontade. Não é fácil assumir a responsabilidade pelas coisas que te acontecem. Não é fácil cancelar anos e anos de transferência e perceber que, sim, seu marido te largou por que você permitiu que o casamento ruísse. Sim, seu emprego é péssimo por que você não teve força de vontade de sequer procurar outro. Sim, você não tem dinheiro e é infeliz por que é completamente descontrolado com suas finanças.

Crescer dói. Mas infelizmente é a dor do crescimento que faz com que a gente aprenda o que é necessário para crescer.

Não jogue nas costas da Deusa o controle da sua vida. Expulse você mesmo o elefante de sua sala ou coloque a bunda dele virada pra porta e assuma que isso vai te trazer sorte.