O Deus

Muito antes do surgimento do cristianismo, os povos da Europa celebravam divindades pagãs. Esse culto era normal e aceitável, pois seus ancestrais vinham cultuando os Deuses dessa forma há muitas gerações.

Então, surgiu um grupo novo de pessoas com o conceito de um Deus masculino único. Essas pessoas não gostavam do fato de que alguém discordava do conceito de divindade que eles estavam tentando disseminar. Afinal de contas, eles estavam certos e todos os outros estavam errados. Pelo menos era assim que eles pensavam.

Esse grupo cresceu muito ao longo dos anos e eles tentaram arduamente integrar a nova religião pelo continente, mas não conseguiam, pois as crenças pagãs eram muito fortes e as pessoas estavam profundamente satisfeitas com seus Deuses. As religiões pagãs eram focadas na celebração da vida, da alegria e da felicidade, enquanto a nova religião dizia que tudo o que era prazeroso e alegre era ruim.

Mas aos poucos, a nova religião foi se infiltrando na mente das pessoas na medida em que ganhava uma nova roupagem e se adaptava, pegando emprestado ritos pagãos e transformando-os em feriados. Deuses foram sendo transformados em santos e santas. Mas mesmo assim, muitas e muitas pessoas mantinham os velhos costumes e não aceitavam a falsa propaganda.

E foi quando a nova religião percebeu que a melhor forma de se impor seria mostrando que os Deuses antigos eram errados, que eram o diabo. Eles pegaram os chifres de Cernnunos, um amado Deus da vegetação; os cascos de Pã e Dionísio, Deuses da sexualidade sagrada; o tridente de Netuno, senhor dos mares; e o rabo em ponta de flecha de Odin, que ele usava para captar o conhecimento da terra.

Juntando tudo isso, os membros da nova religião afirmaram ser essa a imagem de Lúcifer ou Satã e que quem o estivesse cultuando deveria ser entregue às autoridades. E dessa forma muitas e muitas pessoas precisaram ocultar sua fé nos Deuses Antigos, com medo de que suas famílias corressem risco de vida. Com o tempo, os membros da nova religião venceram e trouxeram uma época de trevas pra humanidade. Mas mesmo assim, parte desse culto antigo chegou até nós, dando origem à Wicca.

Antes de entrarmos pra bruxaria nós dificilmente nos pegamos pensando que antes do Cristianismo existia alguma outra coisa. Quer dizer, os povos pagãos não estavam lá de braços cruzados esperando alguma divindade aparecer. Eles tinham seus próprios Deuses, suas próprias festividades e celebrações. Por isso o Cristianismo precisou se esforçar por várias centenas de anos para conseguir sobrepor e finalmente obliterar o culto aos Deuses Antigos na Europa e em outras partes do mundo.

E essa campanha anti-pagã foi tão forte e tão intensa que mesmo hoje sentimos os efeitos dela em nossa sociedade. A imagem mais clássica do diabo cristão é justamente uma coletânea dos Deuses pagãos. E o mais incrível a respeito disso é que os Deuses pagãos não são em nada parecidos com o diabo dos cristãos!

O Deus pagão é um Deus de amor e sexualidade, das florestas e ervas, da vegetação e do sol. Sem ele, nosso mundo seria desolado, frio e infértil. Ele não é nada do que foi dito ou pintado pelos cristãos, e apenas conhecendo-o profundamente que você poderá se tornar um verdadeiro bruxo/bruxa na Wicca.

O Deus muitas vezes é representado com cascos e chifres. Esse Deus possui muitos nomes, dentre eles Dioníso, Herne e Cernunnos. A imagem do Deus vestindo chifres é muito antiga e remonta a época em que a caça era vital para a sobrevivência da tribo. Os homens deixavam suas famílias para caçar, na esperança de que encontrariam comida suficiente para todos. Em um rito xamânico, eles se revestiam com as peles e os chifres de animais para disfarçar seu cheiro e conseguir entrar no meio da manada. Os homens se tornavam a caça e passavam a fazer parte dela.

O caçador sabia o que era se sentir uma caça, mas em sua mente estava a preocupação com o bem estar de sua família. Pois se ele não retornasse com alimento suficiente, todos da tribo poderiam morrer. E a divindade que o auxiliava nessa jornada era o Deus de Chifres.

Muitos novatos têm um pouco de dificuldade de se aproximar do Deus. Isso acontece por que em muitos casos, eles acabaram de sair de uma religião patrifocal, onde o Deus é a única divindade existente e exige culto exclusivo. Essa reação é perfeitamente compreensível, pois é difícil mudar certas crenças de uma hora pra outra.

O Deus recebeu uma péssima reputação pelos mais de 2000 anos de patriarcado, principalmente no que diz respeito à forma de tratamento com as mulheres. As instituições religiosas pregaram fervorosamente e mataram milhões de pessoas, dizimaram civilizações e destruíram culturas, tudo em nome de sua fé.

Os representantes dessa religião nunca permitiram uma divindade feminina, e acreditavam que uma mulher jamais poderia se aproximar de Deus ao ponto de ser digna do sacerdócio. E esse Deus é bom e caridoso para os que o seguem, mas para todos os outros que não limitam seu culto a ele ou que escapam um pouco de seus rígidos padrões pré-estabelecidos, não resta outro lugar no pós-morte além de passar a eternidade em um poço de fogo e tortura, sem esperança de outra vida ou escapatória.

Não é de se admirar que houvesse muita resistência dos povos pagãos em abandonar seus Deuses de amor e felicidade e que ainda hoje muitos recém-chegados não consigam se aproximar do Deus das bruxas de coração aberto. Mas precisamos fazer um esforço no sentido de enxergar quem é o Deus de verdade, pois o Deus das bruxas não se assemelha em nada com o Deus patriarcal com o qual a sociedade está acostumada a lidar.

O Deus suporta a Deusa em seus braços, com igualdade e não com indulgência. Milhares de sacerdotisas de divindades masculinas entregaram suas vidas ao serviço do Deus e foram recompensadas com a felicidade que vem do sacerdócio. O Deus nos aceita como somos, exatamente como somos, e nos auxilia a encontrarmos a felicidade em nossas vidas. Ele não vai nos punir por desobediência, pois Ele entende que as coisas que nos acontecem são puramente fruto de nossas escolhas.

O Deus não é assustador e autoritário, ele é o reflexo do que você enxerga no seu irmão, no seu pai e no seu amante. Um companheiro amoroso e gentil. O sol que afaga a terra com seus raios fertilizadores e o choro necessitado de um recém-nascido.

Celebrar o Deus é celebrar o masculino dentro de você. E mesmo que você seja mulher, existe uma parte de você que é masculina, assim como existe uma parte feminina dentro de cada homem.