Os Perigos de um Grupo

Os Perigos de um Grupo ou Iniciador
Naelyan Wyvern
5 de janeiro de 2009 11h33
Para começar nosso ano vamos discutir um tema muito sério: os perigos de um grupo ou iniciador.Abaixo vou colocar a tradução de um texto criado por Isaac Bonewit em 1979 para avaliar o grau de perigo representado por qualquer grupo, mas antes gostaria de fazer algumas colocações:

Várias pessoas de inúmeros estados e países estão entrando em contato com a TCS buscando orientação. Algumas dessas pessoas nos contaram suas experiências previas e confesso que fiquei assustada com algumas das coisas que li. Eu traduzi o texto abaixo há alguns anos justamente visando orientar os novos buscadores quanto ao perigo a que estão expostos nas mãos de pessoas inescrupulosas ou despreparadas para o difícil caminho do Iniciador, coloco-o aqui porque ele continua sendo absolutamente válido e atual.

Por mais que uma pessoa tenha sido treinada para ser um iniciador, ela não é imune ás armadilhas do caminho. Assim como o sacerdócio tem suas armadilhas, o caminho do iniciador também tem as dele. E elas tendem a ser ainda mais difíceis.

Há alguns anos eu e uma amiga, também bruxa, recebemos de uma pessoa um e-mail muito preocupante. Foi o que me levou a traduzir o texto do Bonewit. Neste e-mail a pessoa, vamos chamá-la de Rita, nos contava que fazia parte de um coven, liderado por uma sacerdotisa e que ela e os demais membros estavam preocupados com algumas coisas que estavam acontecendo. Ela nos escrevia porque queria saber se as coisas que eles estavam vivendo eram certas, porque eles estavam ficando muito assustados. Se fosse assim mesmo, ela continuaria no coven e tentaria se adaptar, mas se não fosse, ela orientaria os demais membros do coven a deixá-lo. E o que ela no contou foi:

– todos os membros do grupo eram obrigados a doar parte de seu salário para a sacerdotisa, que não trabalhava e vivia justamente deste dinheiro;

– os membros se revezavam em fazer as compras da casa para a sacerdotisa, coisa que eram obrigados a fazer;

– todos os membros do grupo eram obrigados a ir, um a cada dia, fazer faxina na casa da sacerdotisa;

– ela controlava os livros que eles podiam ler, os filmes que podiam ver, quando podiam ir ou não ao cinema;

– ela controlava as pessoas que eles deviam conhecer e os amigos que podiam ou não ter, determinando que eles deixassem de freqüentar as casas de determinadas pessoas;

– ela controlava até mesmo a quantidade de relações sexuais que os casais do grupo podiam manter.

Como eles nunca haviam estado em um coven antes, eles não sabiam dizer se estes eram realmente os procedimentos normais dentro de um coven e buscavam orientação. Minha amiga Bruxa ficou chocada, assim como eu, mas acreditava que eles estavam tendo o que mereciam, afinal “como alguém pode ser tão otário a ponto de cair numa dessas?”. Eu já pensava diferente. Como uma pessoa que nunca freqüentou um grupo ou que nunca teve um iniciador, pode saber quando os líderes ou demais membros estão exagerando? Como ela pode avaliar o que é ou não correto quando nunca viveu este tipo de coisa antes?

Minha amiga orientou esse pessoal e ficamos sabendo que todos eles deixaram o grupo da tal “sacerdotisa”, que tentou de tudo para segura-los, desde chantagem emocional até ameaças. Eles foram inclusive atacados magicamente por ela e tivemos que ajudá-los a se proteger. Minha amiga, que é advogada, orientou-os nos procedimentos legais a serem tomados.

Ele se libertaram, mas por causa desta experiência, não tiveram coragem ou ânimo para procurar outro grupo ou outra sacerdotisa na época.

Este foi um exemplo extremamente claro de abuso de poder e aprisionamento, mas existem exemplos mais insidiosos.

Acho que nem preciso citar as situações em que um determinado líder ou sacerdote pede por favores sexuais em troca de ensinamentos ou crescimento dentro da ordem ou tradição. Todos conhecem exemplos de situações como essas, elas ocorrem em todas as religiões.

Mas existem situações perigosas que são ainda mais difíceis de identificar ou se libertar. È o que chamamos de Mecanismo de Transferência.

Vocês já devem ter ouvido falar sobre a transferência que ocorre nos consultórios de psicologia e psiquiatria, quando o paciente se apaixona pelo terapeuta ou vice-versa.

A mesma coisa pode acontecer nos laços mágicos entre dedicador e dedicado. O que mais ocorre é o dedicado ou noviço se apaixonar pelo dedicador ou instrutor. Na maioria das vezes, ele se apaixona pela imagem que tem do dedicador ou instrutor. Ele começa a buscar estar constantemente junto a seu dedicador ou instrutor, quer fazer parte da vida dele ou dela, acha que é único que verdadeiramente entende seu dedicador ou instrutor.

Nas situações mais extremas, ele pode começar a perseguir o dedicador, invadir a privacidade dele ou dela, interferir em seus relacionamentos de amizade e amorosos. Conheço uma sacerdotisa cujo casamento foi destruído devido à fixação de um de seus dedicados por ela, que chegou a tal ponto que ela precisou mudar de endereço e chamar a polícia.

Mas também existe o perigo oposto, de o instrutor se apaixonar ou se encantar pelo seu noviço ou dedicado. Às vezes o dedicador se apaixona pela imagem que o dedicado tem dele. Às vezes o dedicador se encanta pelo laço mágico e pela energia e sintonia que ele gera e não quer deixar de sentir isso.

E esta é a uma das piores armadilhas do caminho do Iniciador. Quando ela ocorre o dedicador ou iniciador perde a capacidade de agir com imparcialidade em relação a seu dedicado. Ele ou ela seria capaz de fazer qualquer coisa para manter o dedicado ou noviço com ele, até mesmo impedir que este dedicado ou noviço tenha contato com outros líderes ou instrutores. Tudo, supostamente, pelo bem do dedicado, é claro.

Ás vezes ele ou ela simplesmente exagera, começando a achar que sabe o que é melhor para seu dedicado ou noviço. Ninguém tem o direito de achar que sabe o que é melhor para outra pessoa.

E o laço mágico de dedicação é um prato cheio para um dedicador ou iniciador exercer sua total e completa influência sobre seu dedicado ou iniciado. A maioria das pessoas não tem consciência do quão potente este laço pode ser e o quanto um iniciador ou dedicador pode ser capaz de influenciar ou controlar as decisões e opções de seu dedicado quando ele ou ela não percebe que está exagerando. E o dedicado será capaz de perceber que seu dedicador ou instrutor está exagerando? Normalmente não, até ser tarde demais.

O dedicador pode achar que está fazendo o melhor para seu dedicado quando na verdade está apenas alimentando seu próprio vício na presença do dedicado em sua vida.

E como perceber se um dedicador ou iniciador está abusando do laço mágico?

Se o dedicador começa a se meter demais na vida do dedicado, querendo controlar ou saber o tempo todo o que ele ou ela faz, sinal de alerta.

Se o dedicador ou iniciador começa a tentar evitar que o dedicado tenha contato com outros iniciadores, com outros grupos, com seus amigos e amigas fora deste grupo, sinal de muito, muito perigo.

Se o dedicador ou iniciador tenta impedir que seu dedicado ou iniciado aprenda com outras pessoas, o caso passou de sério a grave.

Ninguém tem o direito de impedir o acesso das pessoas ao conhecimento. E um dedicador ou iniciador que quer ser a única fonte de instrução de um dedicado ou iniciado está dando mostras que ultrapassou o limite.

Conheço um postulante que tomou verdadeira birra da wicca porque deu o azar de se dedicar com uma sacerdotisa que se apaixonou por ele. Ela começou a se meter cada vez mais na vida deste dedicado, usando inclusive magia para mantê-lo preso a ela, impedindo que ele tivesse qualquer contato com outras sacerdotisas de fora do grupo dela. Ele era casado, mas isso não a impediu de destruir seu casamento e todas

as relações de amizade que ele possuía até que as únicas pessoas com quem ele tinha contato eram os membros do grupo dela. E até mesmo dos demais membros ela começou a isolá-lo.

Quando ele começou a dar sinais de que estava querendo se libertar ela o precipitou à iniciação, apenas com o intuito de usar a energia da cerimônia para aprisioná-lo junto dela.

Não funcionou, é claro. Mas como efeito colateral, ele se tornou violentamente avesso á Wicca e à Bruxaria em geral.

Assim, fiquem atentos aos sinais do texto abaixo. E se souberem de que algo assim esteja acontecendo com vocês ou com alguém que vocês conhecem, peçam ajuda, policial se for preciso. Escravidão espiritual é a pior forma de escravidão que existe.

Tabela de Avaliação do Perigo de um Culto de Isaac Bonewit, versão 2.6

Esta tabela foi criada por Isaac Bonewit em 1979 para avaliar o grau de perigo representado por qualquer grupo religioso ou não. Ela é composta de uma série de questões simples que permitem a qualquer pessoa avaliar o quanto um grupo religioso ou não pode ser perigoso para seus membros e/ou para a comunidade em geral. Ela pode ser usada pelos próprios membros ou por seus pais, companheiros, amigos, etc.

Nas últimas décadas ela vem sendo usada por inúmeros órgãos internacionais para verificar o grau de segurança ou perigo representado por instituições e associações civis, religiosas ou não.

A TCS recomenda que antes de entrar em um Coven, Círculo, Igreja, ou qualquer outra associação dita Wiccana ou não, que se responda o questionário abaixo, pontuando a associação em questão.

Diz o autor: “O propósito desta ferramenta de avaliação é ajudar observadores amadores e profissionais, incluindo aqueles que desejam se tornar membros, de várias organizações (incluindo grupos religiosos, ocultistas, psicológicos ou políticos) a determinar o quão perigoso um dado grupo pode vir a se tornar, comparado a outros grupos, para a saúde física e mental de seus membros e outras pessoas sujeitas à sua influência”.

Como regra geral, quanto maior o número de pontos que um dado grupo recebe (mais para a direita da escala), maior é o perigo que ele representa. Embora seja óbvio que a pontuação da tabela seja subjetiva, ainda é possível fazer julgamentos práticos usando-a, pelo menos do tipo “será que este grupo é mais perigoso que aquele?”. Isso SE toda a pontuação for baseada em observação precisa e não preconceituosa do COMPORTAMENTO REAL do grupo e seus principais níveis de liderança. Isto significa que você precisa prestar atenção ao que os líderes secundários e terciários fazem e dizem, tanto quanto (ou mais até) os líderes principais.

Deve ser observado que esta ferramenta é baseada em teorias psicológicas modernas sobre saúde mental e crescimento pessoal e nos muitos anos de observação participativa e pesquisa histórica do autor em sistemas minoritários de crenças.”

Segue abaixo a lista dos fatores a serem avaliados. Deve-se atribuir a cada fator uma nota de 1 a 10, sendo 1 para nível baixo e 10 para nível alto.

Exemplos: Imagine um grupo no qual se exija que sejam prestados ao líder favores sexuais em troca de continuidade no grupo ou avanço na hierarquia. Este grupo receberá nota alta no fator 10: Favoritismo sexual. Um grupo no qual os membros mais baixos na hierarquia não sejam considerados dignos de falar com o(s) líder(es) mas que pregue a igualdade entre as pessoas, receberá nota alta no fator 8: Hipocrisia.

Fatores:

1. Controle Interno: Nível de poder interno político e social exercido pelo(s) líder(es) sobre os demais membros; falta de direitos organizacionais claramente definidos para os membros.

2. Controle Externo: Nível de influência política ou social desejada ou obtida; ênfase em controlar o comportamento político e social dos membros.

3. Conhecimento/Sabedoria que o(s) líder(es) reivindicam possuir; nível de

infalibilidade declarada ou implícita sobre as decisões ou interpretações doutrinárias ou espirituais; número ou grau de credenciais não verificadas e/ou não verificáveis que o(s) líder(es) alega(m) possuir.

4. Conhecimento/Sabedoria que os membros creditam ao(s) líder(es); nível de confiança em decisões e/ou interpretações espirituais/doutrinárias feitas pelo(s) líder(es); nível de hostilidade dos membros em relação a críticas internas ou externas e/ou em relação a esforços de verificação.

5. Dogma: Rigidez dos conceitos ensinados; nível de inflexibilidade doutrinária ou “fundamentalismo”; hostilidade em relação a relativismo e situacionalismo.

6. Recrutamento: Ênfase colocada em atrair novos membros; nível de proselitismo; necessidade de que todos os membros tragam novos membros.

7. Grupos de Frente: número de grupos subsidiários do grupo principal usando diferentes nomes, especialmente se as conexões são ocultas.

8. Riqueza: Quantidade de dinheiro e/ou propriedades desejada ou obtida pelo grupo: ênfase em doações dos membros; estilo de vida econômico do(s) líder(es) comparado aos membros comuns.

9. Manipulação Sexual de membros por líderes de grupos não-tântricos; nível de controle exercido sobre a sexualidade dos membros em termos de orientação sexual, comportamento, e/ou escolha de parceiros.

10. Favoritismo sexual: Avanço ou tratamento preferencial dependendo de atividade sexual com o líder de grupos não-tântricos.

11. Censura: Nível de controle exercido sobre o acesso dos membros a opiniões externas relativas ao grupo, sua doutrina ou líder(es).

12. Isolamento: Nível de esforço para evitar a comunicação dos membros com não-membros, incluindo família, amigos, amantes, lideres de outros grupos.

13. Controle de Desistentes: Intensidade dos esforços de prevenir ou trazer de volta desistentes.

14. Violência: Nível de aprovação quando usada pelo ou para o grupo, sua doutrina ou líder(es).

15. Paranóia: Nível de medo em relação a inimigos reais ou imaginários; exagero no poder percebido dos oponentes; predominância de teorias de conspiração.

16. Seriedade Exagerada, Hierarquismo: Nível de desaprovação em relação a piadas e brincadeiras sobre o grupo, sua doutrina e líder(es).

17. Perda da liberdade de escolha: Nível de ênfase na perda de responsabilidade por parte dos membros de tomarem suas próprias decisões; grau de perda de poder individual criado pelo grupo, sua doutrina ou seu(s) líder(es).

18. Hipocrisia: nível de aprovação para ações que o grupo oficialmente considera imoral ou não-ética, quando realizadas pelo ou para o grupo, sua doutrina ou líder(es); disposição para violar os princípios políticos, psicológicos, sociais, econômicos, militares, etc, declarados pelo grupo.

Fonte: www.neopagan.net/ABCDEF.html – Tradução: Naelyan Wyvern

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