O Livro, o Sacerdócio e o Wiccano Perfeito

Estou lendo o livro The Circle Within, da Dianne Sylvan. Não é um livro de Wicca básico, não é um livro de feitiços e rituais. É um livro que toca em um aspecto muito negligenciado em nossa religião: a prática pessoal devocional. Ele fala sobre deixar de ser bruxo apenas nos esbats e sabbats e passar a sê-lo 24 horas por dia. Ele fala sobre tornar sua vida uma prática mágica.

Nada do que está no livro é novidade para mim. Eu já vivo e penso estes conceitos há anos. A novidade é perceber no tom da autora o mesmo desânimo que eu sinto em relação a certas situações na Wicca, particularmente as picuinhas entre os grupos. Eu achava que isso era algo inerente à Wicca brasileira, mas, aparentemente, não é.

A autora partilha de minha opinião sobre o uso dos Deuses como instrumentos mágicos para seus feitiços, como meros produtos de prateleira. E ela foca na questão de que a relação com a divindade é uma ponte e você tem que dar os primeiros passos, não a Deusa.

Hoje em dia eu sinto em algumas pessoas um desejo profundo de ser requisitado ao sacerdócio de uma Deusa, Deus ou casal sagrado. Como se o fato de ser escolhido por uma divindade fosse um prêmio que a pessoa deseja receber, um reconhecimento público de seu valor como pessoa e como sacerdotisa. Ao ver essas pessoas eu me pergunto: será que elas deram ou estão dando os primeiros passos na ponte para construir o relacionamento com a divindade? Ou estão pacientemente, de braços cruzados, esperando que a divindade venha ao encontro elas?

Eu percebo que essas pessoas tratam sua relação com a divindade da mesma forma com que tratam seus relacionamentos pessoais. Elas querem um relacionamento pronto, perfeito segundo os critérios delas, recebido de bandeja. Mas não querem ter o trabalho de criar, construir e se esforçar para manter e aprofundar este relacionamento.

Oh, sim, a divindade poderia fazer isso. Mas porque ela se daria ao trabalho? Pense bem, você se esforçaria para conhecer uma pessoa que fica no canto dela, de braços cruzados, esperando que tudo chegue ao colo dela? Ou uma pessoa que chegou até você porque escolheu você e está se esforçando para construir um relacionamento com você?

Outra coisa interessante que a autora fala é sobre o comportamento de um Wiccano fora do círculo. É muito bonito vestir uma linda túnica preta durante os rituais e realizar rituais lindamente, com altares belíssimos e gestos mais graciosos do que bailarinas. Mas o que mostra o valor de uma sacerdotisa não é como ela se comporta dentro do círculo, é como ela vive todo o resto de seu tempo.

Coisas ruins acontecem com todo mundo. O que diferencia uma pessoa que vive uma vida espiritual plena é a forma como ela reage a essas coisas ruins. Você não tem como controlar tudo o que te acontece, não tem como controlar o que as pessoas fazem ao seu redor, mas tem como e deve controlar as suas reações. Uma pessoa que vive estressada o tempo inteiro; que vive mal, sempre chateada com alguma coisa; que vive dando chiliques; que vive implicando com tudo o que todo mundo faz é alguém que você reconheceria como uma sacerdotisa da Deusa?

E ela nos sugere um exercício: pense na imagem de um Wiccano perfeito para você, alguém que personalize tudo o que você espera, tudo o que você pensa sobre como deve ser um sacerdote ou sacerdotisa dos Deuses antigos. Pense em cada aspecto da vida desta pessoa. Como é a casa dela? Como ela se comporta em casa, no trabalho, no trânsito? O que ela faz em seu tempo livre? Como é a relação dela com os Deuses? O que ela faz de bom para o mundo?

Depois pense no que você pode fazer para tornar-se esta pessoa. E comece, agora, neste exato minuto.

“Se você pode fazer alguma coisa, ou pensa que pode, comece. A ousadia tem gênio, poder e magia.” – Göethe

Naelyan