Urbs Brasiliae

Ontem eu viajei muito por todo o DF. Saí de Sobradinho, uns 30 e tantos quilômetros do Plano-Piloto e vim para a Thomas Jefferson, onde estudo inglês. De lá, fui pagar contas atrasadas e umas 17:00 e pouco fui a Taguatinga (outros 30 ou 40 quilômetros do Plano-Piloto) deixar cartazes para o evento do PEJ essa semana. Saí de Taguatinga e fui fazer o mesmo no Gama (mais 20 km), onde tirei um tempo pra responder e-mails e descansar um pouquinho. Às 22:00, sai do Gama e voltei pra Sobradinho (mais de 60 km).

Desde as 17:00 eu estava lendo uma edição especial da Veja sobre Brasília.

Na volta pra casa, aconteceu algum tipo de estresse bizarro. Eu estava sentado no fundo do ônibus e um cara daqueles que você não apresenta a sua filha entrou no ônibus e se sentou do lado oposto ao que eu estava. Estava drogado. Eu continuei lendo minha revista. Em seguida entraram mais três caras e a principio achei que fossem conhecidos. Fiquei preocupado: “Porra! Assalto?!”

O primeiro cara ofereceu maconha pro pros caras que entraram depois. Ele até chegou a perguntar se eu tinha isqueiro – não tinha. Como achei que aquilo podia dar merda, resolvi cantar uns Galdras… “TTTTR”

Ironicamente, quando passávamos pelo balão do Gama, uma viatura passou ao lado do ônibus. No Balão, parece que havia acabado de ocorrer um homicídio. Havia várias viaturas. Os moleques comentaram muito. Ficaram quietos. Já o primeiro cara, ficou muito intranqüilo e começou a “xaropar” com os meninos que entraram depois. Foi nessa hora que eu vi que eles não se conheciam.

Quando cheguei a Rodoviária do Plano-Piloto (por volta das 23:00) fui comer algo e logo em seguida tratei de pegar um ônibus pra casa. Enquanto eu comia, pensava o quanto Brasília é minha casa, o quanto ela é uma das minhas Deusas, se quer saber. São nela que eu vivo, meus pés andam sobre ela. Eu como a comida que ela permite e é nela que eu tenho o meu sustento. Meus são os Deuses da Urbs, são eles que me protegem e me guiam.

Brasília é uma Deusa estranha: nasceu como cidade, mas não tinha – e ainda não tem – povo. Ao contrário das muitas capitais do mundo, ela foi esculpida para ser a mais bela, dentre  as belas capitais do mundo. O tempo de Brasília é o tempo da natureza. Tempo como clima e como medida das horas: todos sabem a beleza que é ver um céu vermelho em agosto ou um belo céu nublado em fevereiro. O espaço de Brasília é o espaço da Razão: todo brasiliense sabe onde fica o norte, sempre. Como sempre não temos ruas, mas temos pilotis, blocos e quadras, fascinantemente dedicados a socialização como qualquer rua. Cada jardim dessa cidade é um adorno, como um brinco de perolas  numa bela moça de 50 anos (jovenzinha para uma cidade…). Cada Cidade-Satélite compartilha dessa beleza a seu modo: Taguatinga e seu espírito urbano típico lembram-me aquelas cidades de médio porte do interior de São Paulo. Sobradinho e sua (agora perdida) calma, com também seu clima serrano, de onde é possível ver todo vale onde o Plano-Piloto se estende. O Gama, para onde foram boa parte dos Candangos que construíram Brasília, a mais nordestina dessas cidades. Planaltina, que já estava aqui quando Brasília chegou e que na sua parte mais antiga, é como toda e qualquer cidade Goiana. Adoro a beleza do Guará, seu ar, sua arquitetura e suas facilidades: guarda o que Brasília tem de melhor. E as “Cidades-Irmãs”: Núcleo Bandeirante, Cruzeiro e a Candangolandia. O Núcleo Bandeirante, a velha Cidade-Livre como era chamada, que lembra aquelas pequenas cidades do interior, pois foi nesse espírito que ela nasceu. O Cruzeiro, praticamente um bairro carioca encravado no Planalto Central. E a Candangolândia, uma extensão da Cidade Livre. Meu Avô viveu lá.

Confesso que amo essa cidade. Mas não sou capaz de amar tudo nela. Não gosto de seu esnobismo, nem de seus privilégios. Não gosto das drogas. Não gosto da pobreza que ninguém vê.

Mas eu a amo, como amo aos meus Deuses.

Toda cidade tem uma alma. Como uma alma xamânica. O Rio é especialmente complexo e das três vezes que fui ainda não consegui entender. Acho que cada Bairro tem uma alma em particular, velha o bastante pra fazer diferença. Brasília tem uma unidade fascinante, mas é visível o distanciamento energético entre Brasília e as Cidades-Satélites.

Quando aprendi a ouvir a cidade, aprendi a ouvir os seus sinais: seus mendigos, motoristas, vendedores ambulantes, seus políticos, seus jornais. Todos falam da Cidade. Saber ouvi-los é ouvir a voz dessa face da Deusa. O povo de uma cidade é a alma da cidade. É o Ka do lugar. O corpo são suas ruas e casas que moldam os corpos das pessoas do lugar. O Rio reflete essa exposição dos corpos; em Brasília conta muito vestir-se bem. E por fim, seu espírito reside nos mitos fundadores, nas histórias e nos heróis que lá chegaram. O Espírito de uma cidade é conhecido por seus habitantes: aqui em Brasília coisas como o Sonho de Dom Bosco (mesmo sabendo que ele falava de outra coisa) se soma a UFOs e a figura de JK, por vezes comparada a Akenaton (alias, muitos aqui acreditam que ele FOI Akenaton em outra vida), assim como profecias sobre o fim dos tempos.

Ser Brasiliense é, portanto, compartilhar desse Espírito. Todo Brasiliense é um místico New Age potencial. Não conheço uma cidade que possua tantas denominações religiosas. Na Av. L2, por exemplo, há uma longa linha de templos, hospitais e escolas acompanhado a avenida, de sul a norte. Mas muitos templos de fato. Ao ponto de um padre espanhol conhecido de um amigo católico ter se espantado e ficado chocado. Ele até perguntou: “Mas este não é o maior pais católico do Mundo?” “Sim,” respondeu meu amigo “e também o mais tolerante.”

Por fim, eu deixo uma pergunta: se Brasília fosse uma pessoa, como ela seria?

A.A.